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Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva

Colangiopancreatografia / OQUE É?

Guia de Procedimentos

A Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva (SOBED) esclarece quais são os procedimentos realizados em endoscopia digestiva. Confira!

Colangiopancreatografia

A colangiopancreatografia retrógrada endoscópica ou CPRE é um exame indicado para avaliação diagnóstica e tratamento das doenças que acometem as vias ou canais biliares intra e extra-hepáticos (colédoco) e o canal pancreático principal (duto de Wirsung). As principais manifestações das doenças, que causam lesão nos dutos pancreáticos e biliares, são icterícia (olhos e pele amarelada), dor abdominal, febre e alterações bioquímicas nas enzimas hepáticas e pancreáticas. Esses sinais e sintomas podem ser decorrentes de cálculos e tumores (colangiocarcinoma) biliares, tumores e cistos pancreáticos, pancreatite crônica, doença crônica parenquimatosa do fígado e estenoses (estreitamentos) inflamatórias ou pós-cirúrgicas das vias biliares.

A CPRE é realizada introduzindo-se, pela boca até a segunda porção duodenal, um aparelho flexível com iluminação lateral que permite a introdução de um cateter plástico pelo orifício de abertura desses canais (papila duodenal ou de Vater) a fim de avaliar radiologicamente a anatomia das vias biliares e do ducto de Wirsung, pela administração de contraste radiopaco pelo cateter injetor seguida de radiografias seriadas do abdômen.

Durante o exame, as imagens radiológicas são interpretadas pelo médico endoscopista, que, dependendo do diagnóstico, poderá realizar complementação terapêutica (tratamento), incluindo papilotomia (secção longitudinal da papila e de pequenos músculos (esfincteres)) com bisturi elétrico ou papilotomo; retirada de cálculos com balão extrator ou cesta tipo basket; drenagem de estenoses (estreitamentos) inflamatórias ou tumorais por dilatação com sonda ou por colocação de prótese endoscópica.

Deve-se interromper uso de aspirina (AAS) por 11 dias antes do procedimento. Caso o paciente necessite do uso contínuo de aspirina ou ainda de anticoagulantes, seu médico assistente deverá orientar e autorizar a interrupção dessas medicações.

Para realização do exame é necessário que o estômago esteja vazio. O paciente deverá permanecer em jejum completo por oito horas. Se houver necessidade do uso de alguma medicação prescrita (por exemplo, anti-hipertensivos) antes do exame, esta deve ser tomada com pequenos goles de água. Leite ou antiácidos não devem ser ingeridos. O uso de grande parte das medicações de uso crônico pode ser postergado para após o exame. Caso seja diabético, o paciente deve fazer uso de insulina ou dos hipoglicemiantes orais após o exame, próximo à primeira refeição do dia. O paciente deverá se apresentar à admissão de clientes no horário designado, e evitar comparecer com unhas pintadas, porque o esmalte prejudica a monitorização da oxigenação sanguínea durante o exame. Antes de iniciar o exame, é necessário o preenchimento da ficha de admissão e do termo de consentimento informado. O médico estará disponível para explicar o procedimento e tirar dúvidas. O paciente deve informar se já realizou outro exame de endoscopia, se tem alergia a iodo ou já teve alergias ou reações a qualquer medicação. Óculos e próteses dentárias deverão ser removidas.

O exame será realizado com sedação sob supervisão de um anestesista para que o paciente relaxe e adormeça. Dependendo da medicação empregada, poderá haver sensação de ardência no local da infusão e no trajeto da veia puncionada um pouco antes de adormecer.

Em seguida, o exame será realizado com a introdução do aparelho pela boca até o duodeno, visualização e cateterização da papila e avaliação da anatomia dos ductos biliares e pancreáticos. Se necessário, complementação terapêutica com papilotomia, retirada de cálculos, dilatação e colocação de prótese biliar será efetuada durante o mesmo procedimento. A duração média do procedimento é de 30 a 45 minutos, salvo situações especiais.

A CPRE é um exame invasivo recomendado para diagnóstico e tratamento de doenças das vias biliares e do pâncreas. Como todo ato médico, não é isenta de riscos. As principais complicações da CPRE podem ser divididas em complicações relacionadas à sedação ou anestesia e complicações relacionadas a procedimentos diagnósticos e terapêuticos.

As medicações utilizadas na anestesia podem provocar reações locais (flebite no local da punção venosa) e sistêmicas de natureza cardiorrespiratória, incluindo depressão respiratória com diminuição na oxigenação sanguínea e alterações no ritmo cardíaco (bradicardia e taquicardia) e na pressão arterial sistêmica (hipotensão e hipertensão). Esses efeitos colaterais são constantemente monitorizados durante o exame com o uso de monitor de oxigenação sanguínea e de controle da frequência cardíaca, estando a equipe habilitada para o tratamento imediato de qualquer uma dessas complicações.

As principais complicações relacionadas à CPRE são dor e distensão abdominal, pancreatite, sangramento digestivo e perfuração duodenal. Pancreatite aguda é a complicação mais frequente, ocorrendo em 1% a 7% dos casos. Perfuração e sangramento podem acontecer em respectivamente 0,3% a 0,6% e 0,8% a 2% dos casos, particularmente nos pacientes submetidos à papilotomia. Colangite (infecção das vias biliares) ocorre em cerca de 1% dos casos, principalmente em pacientes com estenoses (estreitamentos) benignas ou malignas sem condições de drenagem endoscópica. Essas complicações podem prolongar o tempo de internamento hospitalar e necessitar de tratamento com antibióticos ou mesmo terapêutica cirúrgica.

O paciente permanecerá na sala de repouso por cerca de 10 a 30 minutos, até que os efeitos principais das medicações empregadas para a sedação desapareçam. A garganta pode ficar adormecida ou levemente irritada e o paciente pode sentir um discreto empachamento no estômago. Espirros ou sensação de congestão nasal podem ocorrer caso tenha recebido administrado oxigênio suplementar durante o exame.

Após a recuperação anestésica, o paciente será levado de volta para o leito. Poderá haver desconforto ou dor abdominal devido a flatulência decorrente da insuflação de ar no intestino realizada durante o exame, necessária para visualização do tubo digestivo. Caso seja necessário, o paciente poderá fazer uso de medicações analgésicas. O paciente deve comunicar qualquer intercorrência à enfermeira responsável para que sejam tomadas as providências cabíveis, e se necessário entrar em contato com a equipe de endoscopia. O paciente deverá ficar em jejum de 8 a 12 horas após o procedimento. No entanto, caso não tenha sido realizado nenhum procedimento terapêutico, dieta líquida ou branda fica a critério médico.

No dia seguinte ao procedimento, na ausência de intercorrências clínicas, o paciente receberá alta hospitalar, podendo voltar à dieta normal e a fazer uso de suas medicações rotineiras, a menos que tenha sido instruído do contrário por seu médico. O resultado do exame deve ser interpretado de acordo com a história clínica e exame físico do paciente. O médico que solicitou o exame é o profissional mais habilitado para a orientação sobre o diagnóstico encontrado. Se necessário, o médico endoscopista poderá entrar em contato direto com ele. Instruções adicionais a respeito do tratamento serão dadas na consulta clínica seguinte. Se foram obtidas biópsias, a análise poderá ser realizada pelo laboratório de anatomia patológica à escolha do paciente, sendo o resultado entregue geralmente em cinco dias úteis. Caso o paciente tenha sido submetido a um procedimento terapêutico, informações adicionais serão prestadas pelo médico endoscopista.

Caso o paciente apresente qualquer intercorrência, como: dor ou vômitos repetitivos; evacuação ou vômitos com sangue; febre; dor abdominal; vermelhidão ou inchaço no local da injeção endovenosa, deve entrar em contato com seu médico endoscopista.